48 na mosca - matéria 02
um dia de princesa com mukeka di rato
por gabriel kverna / fotos: waldomiro aita e kverna
Realiza: o sujeito nasce em Vila Velha, Espírito Santo, e desde a tenra idade é fã de bandas punk finlandesas. Ainda na mocidade, começa a tocar numa banda que se chama Mukeka Di Rato. Depois, monta um selo batizado de Läjä, lançando grupos como Discarga, Leptospirose e Merda. Não satisfeito, embarca em um projeto hardrock (sim, hardrock!) que atende por Os Pedrero. Deus do céu, que pessoa é essa?
Ele é Fábio Mozine, figura mais que conhecida na “cena” independente brasileira. Empreendedor da podreira musical, já tocou na Europa (onde sofreu dois acidentes sinistros na estrada) e no Japão. Organiza tours, descobre novas bandas e cria novos gêneros. Até no ramo do entretenimento eletrônico anda se envolvendo, lançando games como o Merda – O Jogo dos Jovens.
Depois de ficarmos sabendo que o rapaz estaria em um giro rock pelo Rio Grande do Sul, tocando com o Mukeka, mandamos o repórter especial Gabriel Kverna colar nele, bem juntinho. Ágil e faceiro, Kverna embarcou na van dos caras durante o trecho Porto Alegre/Santa Maria.
Gabriel Kverna: Estamos aqui vivendo um dia de princesa com Mukeka di Rato, e você, Mozine, é um dos maiores empresários do hardcore brasileiro, apesar de não ganhar porra nenhuma. Cara, hoje tu tem o Mukeka, Os Pedrero, o (conjunto Musical) Merda, a Läjä... Em que mais porcarias você anda metido?
Mozine: Agora eu estou focando na minha carreira solo. Já estou compondo as músicas e meu nome artístico é Demétrio Peixoto e acho que até o ano que vem eu vou lançar essa carreira solo.
Kverna: E essa carreira solo já tem uma gravadora por trás?
Mozine: Tudo eu mesmo, com a Läjä e uns músicos ridículos tocando música brega...
Kverna: Aleluia... E além desse projeto de carreira solo de música brega, música gospel pro capeta, o que consome mais teu tempo? A vida na estrada, as gravações, os projetos da Läjä?
Mozine: Tá bem dividido. Eu aproveito o tempo na estrada pra fazer negócios com a Läjä...
Kverna: E você vive do selo e de todos esses negócios milionários, ou existe outra parada que banque tua vida?
Mozine: Não, cara, faz um tempo que eu tô vivendo da Läjä e do Mukeka, projetos para o governo, shows para o governo, drogas, faço qualquer negócio.
Kverna: Trampando pro governo? Não tem medo dos caras te chamarem de traidor?
Mozine: Porra, cara, mas eu sou traidor! Já assumi isso e ninguém mais chama não.
Kaverna: Dos países que tu já visitou, qual foi o mais exótico, o lugar que rendeu mais histórias?
Mozine: Estônia, Letônia e Lituânia. Na Lituânia rolou briga de skinheads, jogaram gás lacrimogêneo no lugar onde a gente tava, foi mó doideira. Na Estônia foi estranho também, muito exótico, carne com gosto de algodão, segurança com tatuagem da suástica no pescoço, uma velha bruxa cheia de gato tava no show. Inclusive o No Rest(1) tava lá tocando com a gente. Essa viagem eu fiz com o Ataque Periférico(2), toquei baixo com eles. Era bem doido porque tava zero grau na rua e os alemães que estavam tocando com a gente dormiam em barraca, ao relento. No total foram uns 32 shows.
Kverna: E rolou essa história de vocês terem ido pro Japão... Lá os caras são muito extremos, é coisa de outro mundo, não?
Mozine: O que mais me impressionou foi a organização e a tecnologia. Tipo, o trem não atrasa um minuto sequer, tem máquina de vender tudo quanto é coisa em todos os lugares, a educação do povo me impressionou muito também. Dentro da casa do cara que nos recebeu lá, a gente não podia fazer nenhum tipo de barulho, o respeito pelo vizinho é total. Mas no show o volume é no máximo, o pogo é extremo. Aliás, tudo lá é extremo. Tipo, os caras que são psychobilly são psychobilly mesmo, com uns topetão gigante. Em tudo que eles fazem eles são extremos.
Kverna: E o pessoal lá já conhecia o Mukeka?
Mozine: Eles conheciam bem a banda, já tínhamos lançado um split e uma coletânea por lá que vendeu umas 600 cópias.
Kverna: Eu falei com o Sandro (vocalista do Mukeka) e ele falou que nessa tour do Japão vocês venderam mais CDs do que no Brasil em um tempão...
Mozine: Vendeu muito acima do que a gente esperava, com certeza.
Kverna: E essa tour com Vivisick rendeu um split e vai rolar mais uma tour com eles, mais duas bandas e um cantor famosão do meio brega japonês... Como é que tá a expectativa para essa tour?
Mozine: Pois é, cara. As bandas que vão tocar são conhecidas. O Vivisick é muito bom, o Fuck On The Beach já tocou por aqui uma vez e vamos fazer o Nordeste também. E esse cantor surgiu lá no Japão, foi a gente que criou o cara e temos uma participação muito ativa no lançamento dele. Ele tinha as próprias músicas e metemos uma pilha no cara, criamos o nome Handsome.. Isso tudo é culpa do Mukeka.
Kverna: Então ele não é do meio hardcore, punk?
Mozine: É um pouco, sim. Talvez não seja tão ativo na cena, mas tem algum tipo de envolvimento, sim.
Kverna: Cara, na Europa vocês sofreram uns acidentes de carro. Depois disso, chegou a ver Jesus ou o Capeta na tua frente? Chegou a pensar em largar essa merda e se entregar pra vida religiosa?
Mozine: Cara, eu vi Jesus fácil. Sofri dois acidentes muito graves. O primeiro foi milagrão, porque não aconteceu nada comigo, a van capotou sinistramente e não aconteceu nada com ninguém e a tour seguiu. Esse foi durante a tour do Ataque Periférico. Daí no outro ano rolou mais um e aí eu me fodi mesmo, quebrei uma vértebra, quase fiquei tetraplégico, passei uns 14 dias na Alemanha, esperando a operação, depois voltei pra casa e fiquei mais um mês de repouso e fazendo fisioterapia. Mas, apesar de o acidente ter sido grave, minha recuperação foi bem rápida. A pancada foi em outubro e em dezembro daquele ano eu já tava viajando e tocando.
Kverna: Mas isso não te assustou, não deixou trauma?
Mozine: Assustou sim, velho. Olha, hoje por coincidência eu estou até tranqüilo dentro dessa van, não sei nem por quê. Mas geralmente eu não fico mais tranqüilo em van, nem em ônibus. No Chile a gente viajou de van e eu fiquei com muito medo. Sinceramente, eu já não tinha mais tanta vontade de voltar pra Europa antes do acidente, então agora é que eu não quero voltar mesmo. Já rolaram até duas propostas pro Mukeka ir e eu não aceitei.
Kverna: Sério? Isso tudo é susto?
Mozine: Rapaz, eu não tenho mais essa disposição de fazer essas tours de 30 dias, pra mim é complicado isso. E na Europa é o mesmo até para as bandas grandes: vai ter show bom, mas vão rolar uns shows horríveis. Não é nem ruim, é horrível mesmo. Então eu fico por aqui mesmo, segunda-feira eu volto pra casa e toco minha vida, meu trabalho. É possível que eu volte pra Europa fazer um festival e mais uns dois shows, mas ficar por lá fazendo 30, 40 apresentações eu não vou fazer não.
Kverna: E o que te motiva hoje a tocar, viajar... Porra eu tô com 26 anos e eu vejo que um monte de cara que tocava comigo já largou o hardcore, nem ouvem mais som, e vocês tão há uma cacetada de tempo. Além de grana e mulher, o que te instiga a permanecer na estrada?
Mozine: Cara, é a diversão. A gente vem aqui pro Sul, toca, faz um churrasco, ganha um trocadinho... Enfim, diversão.
Kverna: Porra, mas só o Mukeka tem 15 anos. Tu começou moleque e hoje é esse homem velho e feio pra caralho, gordo, com essa camiseta do Flamengo... Sempre foi diversão ou teve um tempo em que tu encarou tudo isso como uma profissão mesmo?
Mozine: A gente teve momentos muito ruins, a banda quase acabou, momentos horríveis mesmo. Agora a parada voltou com mais vigor, saca? A gente tá bem concentrado no que é o Mukeka, e a gente sabe que nunca vamos ganhar dinheiro. O que rola é um complemento que às vezes ajuda. Quando rola um show bom, sobra 500 contos pra cada um e isso já ajuda qualquer um. Então é legal, porque tipo o Paulista (guitarrista do MDR), o cara toma no cu o dia inteiro trabalhando num banco, trampa que nem um filho da puta, daí chega o fim de semana o cara já tá louco pra viajar e tocar, sacou? A vibe que mais rola é essa.
Kverna: E a volta do Sandro (3), o lançamento de um clipe que teve repercussão nacional, um CD bem produzido, tudo isso animou?
Mozine: A volta do Sandro foi uma injeção de ânimo, sim. A banda tava numa fase muito ruim com o Bebê (Black Bastard, vocalista que entrou depois da saída de Sandro, membro original do Mukeka).
Kverna: O clipe “Rinha de Magnata” é o mais bem produzido do Mukeka. Eu gosto dos outros, tipo o clipe de “Maconha e Cachaça”. Mas como eu gosto de animação, achei que o “Rinha” ficou foda pra caralho. Como rolou a produção?
Mozine: Foi o Breque (baterista do Mukeka) que arrumou tudo, ele trampa com um maluco que se chama Cadu e parece que ele é meio que referência para esse tipo de clipe. O cara é muito bom mesmo. Aí fizemos uma pesquisa, tínhamos uma idéia para uma outra música, mandamos para ele e o cara mudou tudo, fez pesquisa de imagens e rolou esse clipe que é o melhor do Mukeka, falando tecnicamente.
Kverna: Eu via no fotolog que vocês ficavam pedindo pra galera votar no clipe para o VMB.
Mozine: A gente tinha certeza absoluta que não ia ganhar nada... Chegar a ser indicado já foi foda pra caramba. Fomos na festinha, tomamos cachaça pra caralho. E é legal, é uma oportunidade legal pra banda.
Kaverna: E tão rolando uns boatos de que a Nintendo vai comprar o jogo do Merda(4). Como fluiu esse papo e como eu faço pra passar da fase daquele chefão fodido, meu?
Mozine: É um boato ridículo, mas quem dera fosse verdade.
Kverna: Você venderia?
Mozine: Óbvio que sim! Rapaz, eu vendo tudo, vendo até minha mãe.
Kaverna: Tua mãe sai por quanto?
Mozine: Ah, o valor é alto, mas eu vendo tudo.
Kverna: Mas como rolou esse jogo? O joguinho é foda, cara!
Mozine: Rapaz, isso foi uma idéia minha e de um molequinho. Sempre rola esses molequinho doido... Aí esse apareceu e deu a idéia do jogo. Desenvolvemos esse e temos idéias pra mais uns. Tem o jogo do Cacete Voador, tem o do Motoqueiro Doido, tem um monte pra ser feito ainda.
Kverna: Porra, e qual é a manha pra passar do chefão?
Mozine: Porra, meu, é o mais fácil de todos. É só esperar ele pular em cima de você, aí tu tem que vomitar nele, aí ele vai morrendo.
Kverna: E se hoje chega um moleque e pergunta: “Ô tio Mozine, me indica umas bandas pra eu gostar de rock”, sei lá, um sobrinho, um filho...
Mozine: Indico só bandas da Läjä. Discarga, Leptospirose, Merda...
Kverna: E rolaria um desconto pra esse tipo de moleque?
Mozine: Nunca!
Kverna: Então já que a tua vida é o rock n’ roll, faz um merchandising da Läjä, fala o que tu tem pra vender, os próximos projetos...
Mozine: Hoje em dia pra lançar CDs eu venho fazendo parceria com outros selos, que é a única forma que eu vejo de as pequenas gravadoras continuarem sobrevivendo. Não existe mais condições de mandar fazer mil cópias de uma banda, não vende! Encontrei essa solução e comecei a utilizar, de fazer lançamentos junto com outros selos, de preferência de outros países, pra espalhar mais. E continuo fazendo o merchand das bandas, com bonés, camisas... Vendas casadas de camiseta mais CD e esses joguinhos, organizo turnês de bandas... São várias pequenas ações, pingando aqui, pingando ali... Ah, e vou voltar a vender vinil também.
Kverna: Você acha que o vinil no Brasil vai pegar? Por aqui não existe tanta cultura do vinil, existe?
Mozine: Existe sim! Tem muita gente que aprecia, paga caro, compra... E a fábrica vai ser reaberta em breve. Vou mandar prensar o Gaiola(5) em LP, quero lançar um vinil split do Mukeka com alguma banda gringa...
Kverna: Você acredita ainda no punk e no rock brasileiro? O que você vê de legal em bandas novas?
Mozine: Não acredito em nada, só acredito na minha mãe. Surgem bandas novas, alguns lugares têm uma ceninha legal, mas acredito nas pessoas, não na cena.
Kverna: Porra, você ama muito sua mãe. Quer mandar um recado?
Mozine: Agora não. Ainda não deu saudade dela. Segunda-feira eu talvez já esteja com saudade...
Kverna: Cara, relate para nós a história que aconteceu hoje no hotel. Ouvi dizer que vocês simplesmente acabaram com a mesa do buffet do café da manhã.
Mozine: Graças a Deus eu não vi essa cena, porque isso me irrita, essas atitudes ridículas, principalmente do Sandro (vocal) e do Paulista (guitarra). Porra, nego parece que nunca viu comida em casa, bando de esfomeado. O Paulista, se tiver que meter a mão no bolso pra comprar uma coxinha ele fica com fome, mas no avião o cara comeu cinco pães. A vida do cara é comer, cagar e peidar. Come, caga, peida, come, caga, peida... Pessoa sem educação.
Kverna: E segunda-feira vocês voltam pra casa, para trampar. E o Sandro me falou que vocês saem sexta-feira do trabalho, correndo, fazem show fim de semana e segunda-feira têm que estar lá na labuta. É sempre assim?
Mozine: Quase sempre assim. Eu, por exemplo, segunda-feira às 14h tenho que estar em uma audiência, sou testemunha de um crime. Depois tenho reunião, é foda. Mas os caras sofrem muito mais que eu. O Paulista tem que estar às 10h de segunda no banco, todo engomado. Tem vezes que ele vai virado, aí fica com aquele mau humor gostoso, que só ele tem.
Kverna: E vale a pena?
Mozine: Claro que vale. É a nossa diversão. Em vez de sair pra pescar, jogar futebol, eu saio pra tocar, fazer rock.
Kverna: Então ta, seu Mozine, muito obrigado. Dá um recado pra quem tu quiser agora.
Mozine: Um abraço para os habitantes desse extremo sul do país. Todos vocês que estão lendo isso. Compre CDs da Läja e outros selos independentes também. Fiquem com Deus, sempre. Ah, estou lançando minha carreira solo gospel. Fiquem ligados.
(1) Banda hardcore/punk/trash de Porto Alegre. Tem no currículo algumas tours pela
Europa.
(2) Banda do Rio de Janeiro que contou com Mozine em sua tour pela Europa, em 2006.
(3) É o vocalista original da banda. Passou um tempo de férias do Mukeka, sendo substituído por Black Bastard (Bebê).
(4) Merda – O Jogo dos Jovens: http://www.laja.com.br/games/lajagames/games.html
(5) Gaiola – terceiro disco do Mukeka, lançado em 1999.
Info: www.laja.com.br / www.myspace.com/mukekadirato



