48 na mosca - matérias
fogo amigo
por piero barcellos / fotos: mauricio capellari
A primeira coisa que acontece quando você sai do aconchegante e protegido ventre materno é ser recebido no mundo por um filho da puta mascarado, vestido de branco, que te pega pelos calcanhares e aplica um tapão na bunda para saber se você está saudável. Uma bela recepção digna de uma sociedade movida pela violência. O ser humano é violento por natureza, herança dos nossos ancestrais pré-históricos. Mas como não moramos mais em cavernas, buscamos alternativas para amansar a nossa fera interior com o que a modernidade pode nos oferecer de melhor: puxar ferro em academia, fazer yoga, praticar artes marciais... Enfim, as possibilidades são infinitas. E se eu dissesse que uma delas pode ser feita com o simples puxar de um gatilho?
Se hoje a idéia de andar com uma arma de fogo está relacionada com a violência generalizada, culpem os defensores do politicamente correto. Quem passou lúcido e longe de entorpecentes nos anos 80 viu a ascensão nos cinemas de astros da ignorância desenfreada, que compensavam sua má interpretação com um bocado de balas e explosões. E o melhor, era divertido. E hoje parece inconcebível para algumas pessoas que colocar o seu lado Rambo para fora possa ser uma atividade tranqüila e rotineira como qualquer outra. Para entender qual é o barato de atirar, fomos atrás de figuras que encaram a atividade como profissão, como esporte, como hobby, e também como loucura.
LAVAGEM CEREBRAL PARA NÃO FAZER MERDA
O stand de tiro fica dentro de um grande clube de Porto Alegre. Como parte da construção era feita de pau a pique, era mais fácil prever que as pessoas iam lá para fazer um churrasco do que para sentar o dedo no gatilho. Lá dentro nós fomos recebidos pelo Beto, instrutor de armamento e tiro e diretor do stand. Na verdade o cara é um armário 2x3, daqueles que se te olhar meio torto e falar que você é um coelhinho, você sai pulando. De fala alta e gestos expressivos, dava para perceber que ele é um daqueles profissionais impecáveis, que prezam pelo uso ético e responsável de uma arma de fogo.
Também pudera, o cara foi criado no meio delas! Aos três anos, seus pais passaram a trabalhar e morar dentro de um clube de atiradores. O convívio fez com que Beto tornasse isso sua profissão, montando sua própria escola de tiro.
Mal nos preparamos para conversar, e ele já mostrou como funciona sua metodologia de ensino: “Se um vagabundo entra na tua casa, o que você faz? É a primeira pergunta que eu faço no curso. Vai ligar pra polícia? Vai sair de soco com o bandido? Se você tem um revólver a coisa muda. É dar dois tiros pro alto, ou senão num guia telefônico, que o meliante vai embora”.
O Tackleberry wannabe ainda revela que, no sítio onde mora, dorme com uma carabina carregada do lado da cama, além de ter outros “brinquedinhos” espalhados pela casa. “Já falei pra minha mulher, se entrar vagabundo aqui, pega a arma e mira NA CABEÇA!”
O curso que Beto ministra há 18 anos dura cerca de oito horas, e é personalizado de acordo com a situação de cada cliente: “Aqui aparecem pessoas das mais diferentes camadas, seja pra hobby, por esporte ou por defesa pessoal. Até mesmo donas de casa, que possuem uma pistolinha guardada, que querem se proteger dentro do próprio lar. Aí a senhorinha tem alarme, tem cachorro, e se mesmo assim o vagabundo passar por isso tudo, leva chumbo quente. Já teve aqui até uma velhinha de 80 anos querendo aprender a atirar. Ela mal conseguia levantar o revólver sozinha”.
Para freqüentar as aulas, é necessário ser maior de idade, ter uma ficha criminal limpa (verificada junto às autoridades) e cerca de R$1.500,00, só para começar a brincadeira. Isso sem incluir o feeling pessoal: se o Beto bater o olho e achar que o aspirante a Charles Bronson tem cara de maníaco homicida, veta na hora. E nem adianta entrar com intenções negativas, pois ele muda a sua cabeça na marra: “Na minha aula eu faço uma lavagem cerebral, de forma que, se o aluno fizer uma bobagem, vai estar consciente de que foi uma puta duma cagada, e que vai dar uma lambança das mais furiosas”.
O instrutor de tiro ressaltava a todo instante que o aprendizado é focado para que o aluno só atire contra alguém apenas em caso de vida ou morte. “Se eu vejo um vagabundo arrombando a porta do meu carro, viro pro outro lado, chamo a polícia e já aciono o seguro... Não vou puxar minha arma e atirar no bandido, porque ele não está me oferecendo risco algum.” E exemplificou o que acontece quando alguém atira para se defender: “Eu tenho um cliente que matou um menor de idade em legítima defesa, artigo 25 do código penal. Sabe o que aconteceu? Nada. Foi pro tribunal, constataram legítima defesa. Arquiva-se o processo e devolve-se a arma pro cidadão. E aí não interessa se é menor de idade ou não”.
Credenciado nas mais diversas academias de operação de armamentos (entre elas a SWAT), e responsável por um estudo voltado para o entendimento da criminalidade, Beto fala que um dos assuntos abordados no curso é a prevenção de situações de risco. E citou o exemplo da namorada, que ia ganhar um Audi de presente dos pais: “Eu disse NÃO. Vai andar é de Fiesta, modelo 2003! Tem tudo o que ela precisa, quatro rodas, ar condicionado... Imagina só, a menininha, toda bonitinha, de Audi zero? É uma maravilha para os malandros! Mas não dá pra explicar toda essa questão de prevenção em pouco tempo. Eu preciso é de oito horas, aí sim o cara sai daqui sabendo de tudo”.
MANDANDO BALA
No mesmo stand do Beto, encontramos o seu Raul. E como todo senhor na casa dos 60 anos que se preze, dispensa o “seu” antes do nome. Antes mesmo de começarmos o papo, surgiu o convite para dar uns tiros com ele. Como estou acostumado a pegar em armas apenas virtualmente, em jogos como GTA, Counter Strike e afins, topei a parada.
Na ante-sala da baia dos atiradores fica o equipamento necessário para a prática do esporte, que são os óculos e protetores de ouvido. Se à primeira vista parece desnecessário, basta puxar o gatilho para ver o quão importantes os acessórios são. O mesmo local é usado também pelo pessoal que leva as armas de uso pessoal para o stand. “O cara chega aqui com a maletinha, monta a arma, e sai com ela travada e apontada para o chão. São as normas da casa”, explica Raul. Já nas baias de tiro, um dos auxiliares do lugar abriu uma gaveta onde tinha armas e balas suficientes para um genocídio. Ainda havia mais um armário onde se encontravam as armas maiores.
As baias dos atiradores são parcialmente separadas por muretas. O manuseio da arma é restrito ao espaço da baia, exatamente para evitar que uma merda aconteça. Os alvos são lâminas grandes de papelão, com o desenho de uma figura humana segurando um revólver, conhecido tecnicamente como alvo humanóide. Cada parte do corpo tem uma pontuação, e as mais altas se localizam na cabeça, no tórax e nas vísceras, sendo esta última, segundo Raul, a que mais causaria dano numa pessoa de verdade: “É uma região muito irrigada pelos vasos sangüíneos. Se o cara acerta aqui, é uma sangüeira desgraçada. Causa mais dano do que se acertar na cabeça, por exemplo, porque a bala pode bater no osso e ricochetear”.
O alvo é pendurado num suporte mecânico, que afasta o boneco de papel em uma distância de até 20 metros da baia. Ao fundo, um monte de areia “segura” os projéteis disparados, que depois são recolhidos e reaproveitados para a confecção de novas munições. O espaço das baias é bem amplo, o que facilita a prática de outras modalidades, como o Tiro Prático – uma espécie de rally, em que os participantes seguem um percurso, acertando alvos a granel dentro de um período de tempo. Raul preparou um revolver calibre 38 e deu dois tiros no boneco de papelão. Nessa hora eu pude comprovar a eficácia dos protetores de ouvido: o estampido da arma é muito alto, até mesmo para quem está com a proteção! Era a minha vez.
A arma não é tão pesada. Mas também não é leve. Incomodaria um pouco se tivesse que ficar com ela empunhada na mesma posição por muito tempo. Quando já estava com o alvo na mira, Raul me deu uma instrução: “Procure não pensar que está atirando em alguém que não gosta, não mentaliza uma pessoa de carne e osso no alvo”. Então limpei a mente e tratei de parar de imaginar essas figurinhas que provocam asco, como posers do electro-rock, designers metidos a artistas e roqueiros indie arrogantes. Era apenas eu, o boneco de papelão, e um espaço de sete metros entre nós. Disparei quatro vezes. O impacto da explosão jogou o cano da arma para cima, e rapidamente o cheiro de pólvora pairou no ar. Lirismos à parte, foram dois tiros no meio do boneco e dois no braço, o suficiente para receber um elogio do Raul pela minha pontaria. Enfim, anos e anos de FPS (ou Tiro em Primeira Pessoa, como são conhecidos os games que colocam o jogador na mesma perspectiva visual do protagonista) no computador até que serviram para alguma coisa!
Os cumprimentos não vieram de um atirador qualquer. Raul gosta de armas desde quando era jovem, tanto que comprou uma com o dinheiro do seu primeiro salário. Ele também atua no movimento escoteiro, grupo que tem entre seus valores o respeito aos animais, à natureza e à vida: “Nunca matei nenhum bicho. Detesto caça”. Apesar do gosto, Raul só começou a freqüentar um clube de tiro no início dos anos 90, quando o genro se inscreveu num curso para aprender a usar um revólver. A partir daí ele foi aprendendo as normas e regras que regem aqueles que praticam o esporte. A maior prova disso tivemos quando fazíamos as fotos com ele: nada de apontar a arma para a câmera enquanto o fotógrafo estivesse atrás dela, mesmo sem munição. “Isso infringe as normas da casa”, explica.
Raul é engenheiro aposentado e instrutor de rapel. Encara o tiro como um hobby. “Eu gosto de atirar, do prazer de atirar. E ao mesmo tempo que é uma diversão, é um treino. É prazer e treino numa coisa só. Nunca vim para cá com a intenção de desestressar, mas já teve dias em que eu cheguei aqui meio tenso, e depois de dar uns 100, 200 tiros, acabo saindo mais leve”.
Com toda a prática de anos a fio, se um dia acontecer alguma situação de risco, Raul está preparado para puxar a arma e disparar. Só em duas ocasiões ele sentiu a necessidade de ameaçar alguém de fato. Uma delas foi uma tentativa de assalto quando ele buscava a filha numa lancheria. Bastou mostrar o pequeno artefato de ferro para que os “amigos do alheio” evaporassem no ar.
Já a outra, segundo ele uma situação até engraçada, aconteceu quando manobrava o carro no estacionamento de casa, após voltar de uma sessão de descarrego balístico. Quando foi na direção da porta da garagem para fechá-la, ouviu o barulho de passos caminhando bem rápido. Como era noite, ele só viu a presença de dois vultos se aproximando, um deles com um objeto metálico na mão. Não pensou duas vezes: sacou a arma na direção dos vultos: “Apontei para um deles e mandei pararem. Aí um deles falou ‘Calma, tio! Pelamordedeus!’. Eram dois amigos da minha filha. Foram lá em casa pra deixar um convite de uma festa debaixo da porta, e quando me viram chegando foram entregar em mãos. Ainda bem que eles se salvaram e eu também, porque se eles fossem vagabundos, já teriam tomado na cabeça”.
PAGAMENTO SEGURADO
Guilherme pratica tiro em uma escola que fica numa das áreas mais movimentadas da cidade, em meio a prédios comerciais e residenciais. Quem anda pela calçada consegue ouvir os estampidos que vêm do lado de dentro. E foi ali do lado de fora que ele estava nos esperando. Cara jovem, na faixa dos 20 anos, foi conversar com a gente após um dia de trabalho. Descarregar chumbo num alvo seria o seu “happy hour”: “Eu tenho vindo aqui uma vez por mês. Já vim mais vezes. Gasto hoje uma média de 40 tiros por treino. E aí eu mesclo, atiro um pouco de revólver, um pouco de pistola, um pouco de calibre 12, que é o que eles têm aqui”.
Guilherme começou a freqüentar o stand de tiro com 16 anos, levado pela irmã, que ia até lá para perfurar alguns alvos. Tomou gosto pela coisa, e acabou se matriculando também. Antes disso ele também já dava uns tiros quando era mais novo, com espingarda de pressão no sítio do pai. “Aí aconteceu que a minha irmã deixou de vir aqui, parou com os treinos. Então acabei me associando”. Lá Guilherme pratica não só o tiro ao alvo, como também faz os demais cursos que a casa oferece, e participa das competições internas.
A diversão de certo modo ajuda no trabalho de Guilherme. Atuando na construção civil, ele é o responsável por pagar a peonada. Se algum meliante tentar fazer a “féria do dia” com ele, vai ganhar de presente uma passagem só de ida para o limbo. “Eu monto um pequeno sistema de segurança nos dias dos pagamentos, deixo um funcionário num ponto estratégico, planejo tudo para que não aconteça nada. Mas, se um dia acontecer, não penso duas vezes.”
Neste stand, além dos alvos de papelão, também havia os plates, pequenos pratos de ferro posicionados junto ao chão, que caem com o impacto da bala. E não é que o cara derrubou todos os plates com tiros certeiros? Tem também o popper, feito do mesmo material, porém um pouco maior e mais alongado, apropriado para tiros com carabina.
Mais uma vez fui intimado a atirar. Desta vez nem tanto pela curiosidade, mas para ver se os tiros que dei pela primeira vez não foram apenas sorte de principiante. Novamente com um revólver, um pouco maior do que o usado anteriormente, e também com a pistola. Esta última é um pouco mais leve que o 38. O mesmo digo do impacto do tiro, que não joga a arma tão forte para cima, o que facilita a precisão da mira para vários disparos.
A cápsula das balas é expelida pra fora da arma a cada puxar de gatilho, e vez que outra uma delas ameaça ir na direção do rosto (e aí está a importância de usar também os óculos de proteção). E, de novo, bons tiros. Confesso que é bem difícil ter qualquer outro tipo de pensamento além do senso de segurança e do foco no alvo.
Como o Guilherme encara as armas como um hobby, nada mais natural do que convidar os amigos para dar uns tiros juntos. Porém, a aceitação do convite costuma ser bem menor do que se os chamassem para um descompromissado futebolzinho. Apesar do esporte incomum, já teve gente que aceitou passar pela experiência de queimar uns cartuchos. Não só os amigos, como também as namoradas do jovem mancebo encararam essa “prova de fogo”, e já provaram que são íntimas do grosso calibre: “Já vim com gurias aqui que, depois de dar uns tiros, passaram a gostar e vir treinar seguido. Tem muita mulher que atira melhor do que qualquer homem por aí”. E se rolar uma pisada de bola com uma dessas minas boas de mira? Não rola um receio de ela querer colocar o que aprendeu na prática? “Ah... Sempre dá um medo, né? (risos). Mas isso nunca aconteceu, felizmente.”
GIRLS JUST WANNA HAVE FUN
Mexer com armas não é um privilégio daqueles que possuem saco no meio das pernas. A Mari sabe disso desde pequena, e atira muito melhor do que qualquer marmanjo metido a Schwarzenegger por aí.
Tudo começou com o incentivo do pai, preocupado com a segurança da família composta pela esposa e por três filhas. A fórmula encontrada foi matricular todo mundo numa escola de tiro, para aprender a se defender em caso de emergência. Mas, de todo mundo, só a Mari entrou na onda do pai e acabou gostando. “Se não fosse o empurrãozinho dele, eu acredito que não teria tomado gosto pelo esporte.”
A jovem publicitária de 26 anos começou atirando no clube de tiro, e chegou a participar do Master, uma espécie de rally feito em campo aberto que une pais e filhos para enfrentarem desafios como simulação de acidentes, além de disparar umas balas contra alvos dispersos. Ela também participou da equipe feminina de uma escola de tiro durante um ano e meio, onde treinava visando à participação em campeonatos. “Nesta época eu chegava a disparar até 200 tiros por semana”, conta.
Hoje a freqüência com que Mari puxa o gatilho diminuiu bastante, resultado dos compromissos com a faculdade e com o emprego: “Agora eu só pratico uma vez por ano, que é pra não desaprender”. O fator “namorado” também colabora para que ela fique um pouco afastada dos clubes e stands – o cara não curte. “Ele não gosta, nunca atirou. Como eu moro com ele, acho que vai ser difícil para mim ter uma arma em casa (risos).”
Para ela, algumas pessoas ainda têm medo do tiro, por relacionarem diretamente com a violência em detrimento do esporte. “Na verdade é muito bom, dá uma adrenalina tão grande quanto a de um esporte radical. E você também se sente mais segura, mais protegida por saber se defender.”
BULLET TIME
Afastando-se da movimentação urbana em direção à zona rural é onde encontramos um clube de tiro. Diferente dos stands e academias que visitamos, o clube de tiro é restrito apenas aos sócios, e não possui armamento disponível para empréstimo. Os sócios é que levam os seus “brinquedinhos” pessoais para treinar. A maioria é de senhores na faixa dos 50, 60 anos, e adentram o clube segurando pequenas e discretas maletas. Algumas delas são verdadeiros kits de franco-atirador, com direito a miras telescópicas e suportes para apoio de rifles e fuzis. Para praticar o esporte e competir de igual para igual com eles, só ganhando na mega-sena.
O clube é muito grande, e por onde você olha, há salas e corredores que levam até as baias para a prática de diversas modalidades. Há o espaço destinado ao tiro prático, outro para o tiro com armas de gás comprimido, outro para armas de grande calibre, e por aí vai. Há também uma área isolada, destinada ao treinamento de militares. A maioria dos sócios com que conversei disse que a área é isolada porque os militares atiram muito mal, e os tiros acabam se dispersando para outros ambientes.
Todo mês acontecem torneios internos de cada modalidade praticada no clube. Cada sócio escolhe em quais deles deseja participar. A pontuação dos competidores é registrada, e no fim do ano é feita uma cerimônia de premiação, com direito a medalha e tudo. Mas há outros métodos de confraternização um tanto quanto fora do comum, como é o caso do “tiro na melancia”. Um dos membros do clube é produtor da estimada fruta e no fim do ano, quando acontece a colheita, ele libera as que não atenderam aos padrões de consumo para que o povo pratique tiro ao alvo. As frutas são espalhadas estrategicamente pelo campo aberto, e aí cada um, com a arma que mais lhe apetece, desanda a explodir as frutas na base do pipoco.
Não demorou muito para nos enturmarmos com o pessoal que pratica o tiro esportivo, feito com armas de ar comprimido. O Carlos (nome fictício) é um deles, que nos explicou as peculiaridades desta modalidade. E uma delas é o preço: “Para o tiro esportivo, o tiro de campeonatos mundiais e olímpicos, as armas são caras. Com todos os acessórios, você gasta no mínimo R$ 5 mil para ter condições de competir em alguma coisa”.
O condicionamento físico é outra das características, pois, apesar de as armas pesarem cerca de um quilo, a repetição de movimento de empunhar e disparar num torneio é de 60 vezes num intervalo de uma hora, o que cansa a musculatura. “O cara precisa ser uma verdadeira estátua para atirar bem. E dá uma raiva quando você vê nas competições uma chinesinha com o braço que é uma taquarinha, levantando aquele pistolão e acertando na mosca toda hora. Vá tomar no cu.”
A descrição do nível de concentração exigido para o esporte é algo digno de Matrix, com efeito bullet time e tudo: “Só uma vez eu atingi esse nível de concentração, atirando com um rifle. Com a cara encostada na arma, mirando através da luneta, eu conseguia, ao puxar o gatilho, ouvir o barulho das molas se estendendo dentro do rifle. Eu dava o tiro, e aí não acontecia nada de imediato. De repente a bala batia no alvo, e eu via os fragmentos do tiro no ar, em câmera lenta”. Mas isso eu só acredito na prática.
Os alvos são bem menores do que os utilizados nos tiros com armas de fogo – um quadrado de 10 centímetros de lado, que fica menor ainda quando se está a 10 metros de distância. Também feitos de papelão, são compostos de círculos no seu interior. Quanto mais próximo do centro, maior é a pontuação. Como a arma deve ser segurada apenas com uma das mãos, ela é projetada anatomicamente para ser confortável, e o toque no gatilho é extremamente suave. Para atirar, braço reto e firme, e foco no alvo.
Os protetores de ouvido só são usados para adquirir uma concentração maior, pois o tiro não tem um estampido ensurdecedor. Óculos, só se for especial para a modalidade, que cobre um dos olhos a fim de aguçar a mira. Atirei duas vezes, e constatei que sorte de principiante é o caralho! Rendeu até dedicatória do pessoal no alvo perfurado pelos chumbinhos. Será que o salário de um atirador de elite é maior que o de um repórter?
PRATOS NO AR
Um pouco mais afastado dali, já a céu aberto, é praticado o tiro ao prato. Seu Amaro, presidente do clube de tiro, estava no local nos esperando, e pronto para arrebentar alguns alvos aéreos com um tiro de carabina.
Há 11 anos Amaro ingressou no clube, inicialmente para treinar com revólver e pistola, e depois passou para as armas de alma lisa, usadas no tiro ao prato. “É um tiro muito mais dinâmico, mais difícil de acertar”, explica. O método de mira acaba sendo mais intuitivo do que técnico, uma vez que a atenção é voltada para um alvo móvel, e precisa ser disparado antevendo a posição dele no ar. “Você sempre atira no vazio, nunca no próprio alvo”. A arma geralmente é de cano duplo, já que, na prática do esporte, se você erra o primeiro tiro, tem a oportunidade de disparar o segundo em seguida.
É um esporte caro. Segundo Amaro, uma carabina boa, de fabricação nacional, não sai por menos de R$1.200.
Da mesma forma são os treinos: estimando-se que o cara pratique tiro ao prato toda semana, ele vai gastar cerca de R$150, o equivalente à compra de 100 pratos para atirar mais os cartuchos para alvejá-los. Conforme o presidente do clube disse, é caro, mas não é impraticável.
O tiro ao prato conduziu Amaro para outro tipo de hobby, que é a caçada. Embrenhando-se no mato atrás de perdizes, ele afirma que o mais interessante da caça é o trabalho realizado pelo cachorro. “Quando ele avista a perdiz, o cão já fica na posição característica, apontando na direção com a pata.
Aí você prepara a arma, dá o comando pro cachorro, e ele corre na direção delas. A perdiz se assusta e dá um pique no vôo, e depois pára de bater as asas para respirar e prosseguir. Quando ela dá essa respirada é a hora de atirar. Em seguida vem o cachorro trazendo a perdiz na boca. Quem já viu fica apaixonado pelo trabalho do cão.”
A máquina que dispara os pratos não deixa de reproduzir artificialmente o movimento de animais de caça, fazendo com que os discos simulem o movimento tanto de uma ave quanto de uma lebre, sendo lançados junto ao chão. Um operador é encarregado de jogar os pratos para cima com o comando do atirador. “Vai!” O disco laranja corta os céus, para em seguida virar pó com um disparo de carabina. Com essa eu não cheguei a atirar (não quis arriscar, o dono dela já estava me olhando meio torto quando eu pedi para segurar). É uma arma muito pesada, não é pra qualquer um segurar aquele negócio e ainda manter a mira.
OLHA A CABEÇA!
Para aqueles que ainda acham que atirar com uma arma de fogo é muito perigoso, existe outro tipo de esporte em que você pode puxar o gatilho, e ainda por cima mirando em pessoas de verdade. Com a vantagem de que ninguém morre no final.
O paintball não é propriamente uma modalidade de tiro. Está classificado internacionalmente na categoria de jogos radicais. Tanto que as supostas “armas” de paintball, apesar de possuírem a mesma estrutura das de verdade, são chamadas de “marcadores” pelas federações do esporte. Quem nos explicou isso foi o Rodrigo, dono de um campo onde pessoas atiram umas nas outras com bolinhas de tinta.
Em campos abertos com a presença de obstáculos, ou no meio do mato fechado, o esporte consiste na formação de duas equipes que duelam entre si, seja com o objetivo de eliminar os adversários ou de capturar a bandeira do time inimigo. O sinal é dado por um juiz, e a batalha começa. Se o cara é alvejado, levanta o marcador para cima e sai do campo.
O ar comprimido no marcador dispara as bolinhas numa velocidade de até 20 tiros por segundo. Apesar de não ser letal, um tiro desses no rosto pode fazer um belo estrago, transformando um incauto desprotegido num legítimo ciclope. Por isso o paintball exige que os participantes usem máscaras de proteção, que cobrem toda a parte frontal do rosto. “É o único esporte em que você sente a adrenalina de ser a caça e o caçador ao mesmo tempo”, enfatiza Rodrigo.
O dono do campo também conta que costuma receber todo tipo de público, de crianças a adultos. “Tinha que ver na época que estourou o ‘Tropa de Elite’ nos cinemas. Isso aqui lotou! Todo mundo se emocionando aqui dentro, se achando o Capitão Nascimento.” Ele também fala que muitas empresas agendam horários para levar os funcionários. “Tem muito cara que entra em campo bem louco pra descarregar o marcador no chefe”, conta.
Enquanto estávamos lá, um grupo aguardava sua vez de entrar em campo. Cinco ex-milicos, que serviram o exército numa cidade do interior, e agora conseguiram reunir a turma para uma confraternização. Quando perguntei o que era melhor, se atirar com armas de verdade ou com os marcadores de paintball, a resposta foi unânime: “O paintball é melhor porque a gente pode atirar nos outros de brincadeira, coisa que não dá pra fazer com um rifle do exército”, disse um dos caras.
Jogando entre cinco pessoas, um dos lados ficaria desfalcado. E como já tinha atirado com as armas de verdade, não custava nada entrar em campo para equilibrar a disputa. De colete, máscara e marcador em punho, me juntei ao grupo para duas partidas. No modo como jogamos, ganha a equipe que conseguir eliminar todos os adversários. Aí rola uma pausa para reabastecimento das bolinhas de tinta, e depois começa tudo de novo.
A adrenalina vai a mil. Claro que não chega nem perto de uma guerra real, mas é essa a sensação que se tem quando se está jogando. Há o desafio de escapar dos tiros atrás das barricadas, de sair de um ponto protegido para outro mais perto do adversário, de dar cobertura para que um dos seus colegas avance no terreno. Uma das bolinhas acertou meu braço, mas não estourou. Você só é eliminado quando ela bate e fica aquela mancha amarela no corpo. No primeiro jogo eu até me saí bem, e minha equipe venceu. Já no segundo, não durei nem dez segundos: uma bolinha na cabeça me colocou pra fora de imediato. Game over pra mim.
HEADSHOT
Falando em “game over”, tem muita gente que substitui o armamento pesado pela leveza do teclado. Um dos gêneros mais conhecidos e jogados no mundo inteiro pelos gamers são os FPS. Alguns deles são inclusive utilizados no treinamento de soldados nos Estados Unidos, por reproduzirem situações de conflito muito próximas da realidade. Tal realismo também desperta a ira de políticos e associações de pais e educadores, que crêem que tais jogos possam influenciar crianças e adolescentes de maneira negativa, tornando-os mais violentos.
Encontramos Vitório (nome fictício) jogando numa lan-house no Centro. Com 12 anos no lombo e ainda cheirando a leite, o jovem rapaz estava eliminando alguns terroristas no Counter Strike. Em meio aos tiros virtuais e eventuais headshots, Vitório disse que joga desde os 10 anos e que curte games mais fantasiosos, como Resident Evil, e de RPG. Ele fala que gosta deste tipo de jogo pelas habilidades que ele proporciona: “Você ganha mais reflexos, tem que pensar mais rápido diante de uma situação, tem que montar uma estratégia, tem que ser bem inteligente senão morre rápido”.
Ele encara o tiroteio virtual como um momento de relaxamento, principalmente depois de uma aula difícil, ou de uma bronca da “tia”.
Apesar de o pai dele ter dito que não gosta deste tipo de jogo, sempre que tem dinheiro – quase todo dia, segundo ele – Vitório vai para a lan-house e gasta boa parte do tempo em meio aos cenários arenosos e armamento pesado do universo virtual. Quando está sem uma parceria para dividir a máquina ao lado, ele tem oponentes de qualquer parte do mundo pela internet.
O cara também costuma impor um limite para si mesmo quanto ao tempo de jogo: “Não costumo passar de duas horas. Tenho colegas meus que são bem viciados, e jogam bem mais. Alguns deles fazem apostas em dinheiro, e eu não acho tão legal fazer isso”.
Contrariando a maioria das opiniões dos jogadores espalhados pelo Brasil afora, Vitório defende a restrição e proibição de jogos muito violentos pela faixa etária, por achar que eles podem influenciar algumas pessoas, até mesmo aquelas na sua faixa de idade. “Eu tenho um pleno controle, consigo me distanciar do jogo e me divertir com ele. Não pegaria numa arma de verdade, e nem tenho curiosidade. Mas teve o caso do amigo de um colega meu que pegou a arma do pai em casa e se matou. Então é pra evitar esse tipo de coisa.”
ARRANQUEI A UNHA DELE FORA
Muros pichados, sacos de lixo esparramados a esmo onde ratos fazem a festa, viciados em crack tomando a calçada à noite para consumir a droga sem serem importunados. O cenário digno de um filme pós-apocalíptico existe e fica na rua onde Mário (nome fictício) mora. Encrustrada no Centro de Porto Alegre, o logradouro virou o point de tráfico e consumo de drogas.
Há três anos ele se incomodou pela última vez com a situação, transformando o problema numa diversão ilícita.
Ao cair da noite, quando a movimentação na rua é tomada pela galerinha com seus cachimbos improvisados com lata de refrigerante, achando que conseguir uma pedrinha para fumar seria a sua única preocupação, é quando Mário entra em ação. Da janela do seu apartamento, ele escolhe um alvo. Prepara a câmera para filmar a ação, e municia a arma de pressão.
Vítima escolhida, ele se posiciona, mira e atira. A certeza de que o tiro foi certeiro acontece com os berros e xingamentos escutados em seguida. “Tenho muitos vídeos botando eles pra correr”, diz com um leve sorriso nos lábios.
O nosso aspirante a justiceiro conta que nunca foi pego em flagrante. “Sempre tem um ou outro que chama a polícia. Quando eles chegam, eu me escondo. Como é de noite, ninguém sabe de onde parte o tiro. Já teve um gurizão que eu arranquei a unha dele fora, outro que tomou um tiro na orelha (risos). E vão falar o quê? Que tem um louco atirando neles quando estão fumando crack?”
A diversão de Mário não fica restrita aos viciados, tampouco à arma de pressão.
Volta e meia ele se reúne com os amigos em algum stand de tiro para queimar alguns cartuchos. Além da arma de pressão, ele tem um revólver e uma pistola, ambos ilegais. “Pô, amigão, eu tenho comércio aqui. Então tenho que me proteger de alguma forma. Felizmente nunca tive problemas de alguém entrar pra roubar ou qualquer outra coisa. Mas se um dia acontecer, nestes casos costuma ser ‘ou morre eu ou morre tu’. E aí morre tu, meu velho.”
Para conseguir as armas ilegais, ele recorreu aos amigos de longa data, com quem afirma estar sempre “sintonizado”. “São todos amigos que se criaram aqui na região, no meio da loucura. A gente cresceu no meio das gangues por aqui, e era todo mundo terrível. Tinha muita rixa, muita briga, muito envolvimento com o tráfico. Não tinha quem não andava armado, era uma coisa até natural. Hoje uma parte está morta, outra está presa, e poucos foram os que sobreviveram. A lei aqui é ‘tá mal, morre’.”
Agradecimentos:
Academia de Tiro Urbano – (51) 3381-0469
Clube de Caça e Pesca Tiro 4 – (51) 3264-2499
Escola e Clube de Tiro Magaldi – (51) 3223-2545
Locadora de Vídeo Feldman – (51) 3211-0867
SpeedGame Paintball – (51) 8451-0842
TÁ A FIM?
Para ter uma arma em casa, seja ela de fogo ou de ar comprimido, é preciso passar por um procedimento semelhante ao que você faz para dirigir um carro, mas um pouco mais complexo e difícil. É imprescindível ser maior de 25 anos, ter uma ficha criminal limpa e passar por uma bateria de exames teóricos, práticos e psicológicos (só pelo fato de ser leitor da VOID, você já tem a sanidade questionável). E com o porte em mãos, para andar com uma arma de um lugar para o outro, você também precisa ter a guia de tráfego.
Quem emite esses documentos é a Polícia Federal. Você pode encontrar mais informações no site deles: www.dpf.gov.br. E, caso tenha se interessado pelo esporte, as confederações brasileiras de tiro esportivo e de tiro prático podem dar uma mão. Os endereços são www.cbte.org.br e www.cbtp.org.br.



