47 chuta - i shot macunaíma
que saco que era 2009
por fabrizio baron
Antigamente, quando havia um problema, falava-se diretamente com o dono da empresa. O próprio negócio levava o nome da família. Daí o mundo e as empresas cresceram e a clientela passou a ser atendida pelo Serviço de Atendimento ao Consumidor, o SAC. Mesmo falando com um funcionário, ainda havia uma certa eficácia. Sentia-se que a “moça” do outro lado era solícita, afinal, era apenas ela, e quem sabe mais alguns ali, pra atender muitos clientes.
Podia-se ainda xingar por defeitos nos serviços e produtos que prometiam melhorar a vida mas estragavam até o churrasco do fim de semana. Por outro lado, o pobre funcionário podia rebater com “tu é bem burro mesmo, tava tudo no manual!”.
Daí veio um boom no consumo sem precedentes, e a globalização, impulsionada pela informática e a telefonia móvel, exigia uma nova forma de atender os agora milhões de consumidores (não mais clientes). O SAC precisou ser terceirizado e padronizado. Manuais rígidos de conduta, conversas logadas, protocolos de serviços, isenção de humor, raiva e opiniões pessoais; a ordem era parecer o menos humano possível.
Surgia também um novo consumidor, em média mais burro que todos os outros da história. Ignorante digital, ignorante de sua própria língua (que dirá inglês) e imediatista. E no meio disto tudo também havia, é óbvio, o consumidor consciente e em verdadeira urgência de ajuda, a grande vítima. O grande ícone daquele período fora uma empresa chamada NET. Quem foi cliente e ainda vive sabe do martírio. Horas e horas de orelha roxa e a vida esvaindo fone abaixo.
Era o que havia de pior em produto, serviço e pós-venda. Graças àquele monopólio de ruindade, a era de ouro do SAC chegava a um melancólico final, sepultada pela idiotice total.
Eis que naqueles anos da crise financeira mundial começava de fato a era da robótica. Com protocolos de segurança rígidos e seguindo os tratados internacionais de conduta e ética aplicados a humanóides (sem falar na ausência de qualquer jurista brasileiro no processo), os robôs ainda não podiam ser hackeados. Todas as rotinas de inteligência artificial esbarravam em limites e premissas que nem o mais santo dos humanos sequer alguma vez sonhou. Aquele velho medo, experimentado por Santos Dumont e Einstein ou até mesmo Graham Bell, de ver suas criações caírem em mãos criminosas, pertencia agora a filmes e jogos.
O mundo experimentava um novo renascimento, e todo e qualquer problema de produtos e serviços era delegado aos robôs domésticos. Uma simples unidade do novo SAC, agora inteiramente substituído por uma única CPU, podia atender até 1 milhão de clientes simultaneamente, sendo que para máxima eficiência era requerido possuir um personal faz-tudo. Era ele que em segundos resolvia uma fatura incorreta, cancelava assinaturas, listava e ordenava a entrega do supermercado, passeava com o cachorro, levava pra casa o “dono” quando bebia na festa, etc.
Todos aqueles que no passado riam e achavam aquilo tudo mera utopia sci-fi morreram de cansaço, pois continuaram esperando no telefone pra cancelar a NET.



